O argumento central de Cuidado, trabalho! é simples e direto: vivemos em uma sociedade de organizações; dependemos delas para nossa sobrevivência e para o progresso social; entretanto, nossa relação com as organizações é ambígua e marcada tanto por prazer e satisfação como por sofrimento e dor. O fato é que ainda conhecemos pouco sobre como as organizações funcionam. Para superar essa lacuna e tentarmos ter uma vida corporativa mais
saudável, devemos entender melhor as ambigüidades e contradições do mundo corporativo. E, no centro dessas ambigüidades e contradições, está o trabalho.
Em sua tese de doutoramento, defendida no Instituto de Psicologia da USP, o pesquisador Pedro Fernando Bendassolli entrou em uma máquina do tempo e fez longas incursões.
Seu foco foi justamente o homem e o trabalho. O viajante privou com Aristóteles, Platão, Tomás de Aquino, Lutero, Adam Smith, Weber e Marx. Deles, e de pensadores contemporâneos, ouviu explicações e recebeu orientações.
Do autor de A república, ouviu atento: ¿um estado com uma constituição ideal [...] não pode permitir que seus cidadãos vivam a vida como trabalhadores mecânicos ou comerciantes, o que por si é ignóbil e inimigo da virtude.
Nem tampouco pode permiti-los de se engajar na agricultura: o ócio é uma necessidade, tanto para o crescimento da virtude como para a perseguição das atividades políticas¿.O bom Aristóteles ecoava seus compatriotas gregos, para quem o trabalho brutalizava a mente e inutilizava o homem para o que realmente importava: a política e a filosofia. Em suma, trabalho era coisa para escravos.
Da Grécia Antiga para a Idade Média, o sentido do trabalho transmutou-se de maldição em bálsamo. Em Agostinho, encontrou o viajante um interlocutor ideal, o qual pacientemente lhe mostrou ser o trabalho a co-criação do mundo, uma verdadeira parceria com Deus. Afinal, ao transformar a natureza, o homem tem a oportunidade de refletir sobre a ação divina. Depois das trevas medievais veio o Renascimento. O trabalho ganhou status e passou a ser uma forma de autoexpressão.
Foi o momento de glória do artesão, cujo trabalho é sustento e arte. O artesão é o artífice de sua própria sobrevivência e agente de transformação do mundo ao redor. Para ele, importa o produto e importa a criação. Correram as águas e irrompeu o protestantismo. Com Lutero e Calvino, o viajante das idéias aprendeu que trabalhar é a principal forma de servir a Deus. Para eles, a vocação e a profissão são decretos divinos e é preciso trabalhar
duro para aplacar as incertezas. O objetivo da vida é inserir-se no seleto grupo de eleitos para a salvação. É o ascetismo dos puritanos que ajuda a formar os exércitos necessários à industrialização.
Paradoxalmente, a industrialização, ao disciplinar corpos e mentes, tornou-se o momento máximo de glória do trabalho e do trabalhador, que são, afinal, duas entidades construídas a golpe de foice e martelo, discurso e panfleto.Porém, como se sabe, toda glória é passageira. Ao final da viagem, a máquina do tempo flutua pela Europa e pela América, a captar os herméticos filósofos do final do segundo milênio. Detém-se com vagar na França e na América. De seus pensadores colhe vasto desencanto e comedida esperança. A segurança no emprego acabou, o caráter foi corroído, a ética do trabalho foi enfraquecida e até Max Weber não está se sentindo muito bem. A força motriz não é mais o trabalho, mas o consumo. Então, o viajante pensou, meditou e concluiu: o trabalho está em crise! Pobre de nós? Talvez, se não quisermos crer que do novo caos pode nascer um novo verbo.
Cuidado, trabalho! segue os caminhos abertos pelo viajante do tempo, mas explora o aqui e agora. Este pequeno volume contém cerca de 40 crônicas sobre temas atuais do mundo corporativo. Elas estão divididas em unidades temáticas, com reflexões de diversos pontos de vista sobre o trabalho: do indivíduo, das empresas e da sociedade. Cada crônica pode ser lida separadamente, apre...